Antes do reino ter reis. Antes de Tharok ser nome proibido. Antes da Flecha da Luz ser lenda…
…havia apenas um lago.
Um espelho calmo entre montanhas douradas, onde dois jovens sentavam lado a lado — sempre sobre a mesma pedra, como se o tempo ali escolhesse não passar.
Ela, de sangue nobre, criada entre os corredores frios de uma tia que chamava de tutora, mas que jamais lhe ensinou afeto.
Ele, um órfão sem brasão, forasteiro do norte, sobrevivente de uma invasão esquecida, carregando um nome que nunca contou inteiro a ninguém.
Erik e Cristal.
Foi à beira daquele lago que se viram pela primeira vez — como se o mundo tivesse segurado a respiração por um instante para que aquele encontro fosse possível.
Ela caçava. Ele patrulhava.
Mas naquele momento, ambos estavam apenas fugindo de seus próprios silêncios.
— O que você acha que acontece quando a gente morre? — ela perguntou uma vez, com os pés dentro d’água e o arco ainda nas costas.
Ele demorou a responder.
— Acho que a gente vira uma memória.
— E quem escolhe se a gente é lembrado? — insistiu.
Ele a olhou.
— Quem não teve coragem de nos esquecer.
A partir daquele dia, os encontros no lago se tornaram o refúgio dos dois. Falavam sobre o mundo, o medo, a solidão, e tudo o que ninguém ousava confessar dentro dos muros do castelo.
Erik ainda era apenas um soldado — treinado por um cavaleiro dourado que o acolheu quando chegou descalço a Sagittaria, fugindo do fogo que consumiu sua terra natal.
Cristal ainda era apenas uma nobre sem nome, ignorada em banquetes, observadora invisível nas sessões de voto de um governo que trocava de líderes mais rápido do que de bandeiras.
Mas juntos… começavam a se tornar algo mais.
A transformação veio no fogo. Numa patrulha nas montanhas ao sul, o exército dourado avistou chamas cortando a floresta. Erik, então já oficial, liderava a investida.
Foi lá que a viram: Cristal, sozinha diante de um dragão cuspidor de fogo, protegida apenas pelo instinto — e por um arco velho, retirado de uma caverna sagrada onde jamais devia ter entrado.
No auge da batalha, as chamas do dragão envolveram o arco. E quando ela o empunhou, uma luz saiu de seu peito. O símbolo de Sagittaria apareceu em sua armadura.
Todos viram.
A lenda nasceu ali.
Erik lutou ao lado dela. E nas brasas daquele dia, usou o ferro derretido para forjar a lâmina que, anos mais tarde, seria chamada Espada da Justiça.
Mas naquele momento…
Eles ainda eram apenas dois jovens que voltariam ao lago, de vez em quando, para falar sobre a morte. E sobre tudo aquilo que, aos olhos do mundo, ainda não estavam prontos para carregar.
Hoje, o lago ainda existe. Dizem que se você sentar na mesma pedra, poderá ouvir ecos de duas vozes falando baixinho. E uma delas ainda pergunta:
— Você acha que a gente vai ser lembrado?
Era uma noite enluarada no reino de Sagittaria, onde a magia e mistério entrelaçavam-se sob o céu estrelado. A princesa Cristal, de coração valente e espírito livre, aventurou-se pela densa floresta à procura de seu adorado tigre de estimação, um companheiro que tinha desaparecido misteriosamente mais cedo naquele dia. A floresta, embora familiar, parecia diferente à noite. As sombras dançavam entre as árvores, e o silêncio era cortado apenas pelo som do vento sussurrante.
Enquanto caminhava, Cristal foi subitamente envolvida por uma presença gélida. Um fantasma noturno, conhecido por sua habilidade de sugar almas dos incautos, surgiu diante dela. Com olhos que brilhavam com uma luz sobrenatural, o espectro avançou, lançando um ataque que começou a drenar a essência vital da princesa. Sentindo suas forças esvaírem-se, Cristal invocou em pensamento a proteção do signo de Sagitário, o guardião espiritual de sua linhagem.
No momento em que a esperança parecia se desvanecer, o cavaleiro místico de Sagitário, um centauro imponente e protetor do reino, emergiu das sombras. Empunhando um arco resplandecente, ele disparou uma flecha dourada que cortou o ar com um brilho celestial. Ao atingir o fantasma, a flecha dispersou a entidade maligna, libertando Cristal de seu aperto mortal.
Com o perigo afastado, a princesa foi envolta em uma aura de luz, revigorada pela proteção de seu protetor espiritual. Agradecida e aliviada, Cristal encontrou seu tigre logo em seguida, escondido mas são e salvo. Juntos, eles retornaram ao castelo, onde a noite tornara-se um testemunho da eterna vigilância e bravura do cavaleiro de Sagitário, guardião incansável da família real e do reino de Sagittaria.
Na noite mais escura do ciclo lunar, quando a luz da lua cheia pairava como um farol solitário sobre os pinheiros de Sagittaria, uma ameaça ancestral ergueu-se do abismo sombrio: Tharok, o devorador de luz, acompanhado de um exército de guerreiros das sombras.
As estrelas pareciam se apagar com sua aproximação.
Do alto das montanhas douradas, Princesa Cristal, envolta em sua armadura radiante, ergueu seu arco encantado. Ao seu lado, de joelhos, o Príncipe Erik, com sua espada flamejante cravada no solo sagrado, sussurrava preces à Deusa Astra, guardiã dos justos.
O Exército Dourado, posicionado atrás deles, esperava o sinal.
“Por Sagittaria!”, gritou Cristal, e a flecha celestial — banhada na luz da própria lua — voou em direção ao céu noturno, iluminando o campo de batalha como uma estrela cadente.
A flecha atingiu Tharok em pleno salto, impedindo sua investida sobre as tropas douradas. O impacto ecoou como um trovão divino, espalhando as trevas por entre as árvores.
Erik então ergueu-se, apontando sua espada para frente. “Avancem! Sagittaria jamais cairá!”
A batalha foi feroz, mas naquela noite, a “Dupla Poderosa”(Powerful Duo) — como passaram a ser chamados — não apenas protegeu seu povo, como selou uma nova lenda no coração do reino.
Desde então, sempre que a lua cheia brilha mais forte, dizem que é a Princesa Cristal mirando novamente, pronta para defender Sagittaria, com sua flecha da luz.
Na penumbra da Floresta de Thandor, onde nem mesmo a luz da lua ousava pousar por completo, a Princesa Cristal caminhava sozinha. O chamado havia sido silencioso — um sussurro que invadia seus sonhos, noite após noite, ecoando uma única palavra:
“Volte.”
Desde a batalha contra Tharok, Cristal vinha sendo assombrada por visões. Não de inimigos, mas de si mesma… ou de algo que a imitava. O povo falava de uma presença antiga que residia nas sombras daquela floresta, uma lenda esquecida: A Dama do Véu Sombrio, um espírito sem rosto, nascida da dor de uma rainha traída, condenada a vagar eternamente à procura de um corpo para habitar.
Guiada por sua coragem — e talvez por algo mais — Cristal adentrou o bosque envolta em sua armadura dourada, mas sem armas. Sentia que esta batalha não seria vencida com aço ou flechas.
A névoa rastejava entre os galhos como dedos de fantasmas. E então ela surgiu.
Alta. Silenciosa. Sem rosto.
A criatura parecia moldar-se a partir da própria escuridão, movendo-se sem ruídos, como se fosse um pensamento esquecido. Mesmo sem olhos, Cristal sentia ser observada. Mesmo sem boca, ouvia a voz em sua mente.
“Você tem luz demais...
Mas toda luz, um dia, se curva à sombra.”
Cristal caiu de joelhos. Um frio ancestral percorreu sua espinha. A floresta apertava. Sua visão escurecia.
Foi então que, em um lampejo de lembrança, ela murmurou:
“Sagitário protetor, eu te invoco...”
O brasão de sua armadura brilhou. Uma aura dourada rompeu o véu da escuridão por um breve segundo. A sombra gritou — não em som, mas em presença. Um grito que reverberava dentro da alma.
Com esforço, Cristal ergueu-se em direção a criatura.
“Eu sou Princesa de Sagittaria. E nenhuma escuridão, por mais antiga que seja, apagará minha luz.”
A Dama recuou, dissolvendo-se lentamente na névoa, como se banida por algo mais puro que qualquer feitiço.
Cristal não matou o espírito.
Ela o venceu com fé.
Ao retornar ao castelo, carregava mais do que uma nova cicatriz: trazia a certeza de que as trevas existem — mas a luz da flecha dourada, mesmo quando apagada, vive dentro de quem jamais se curva.
Desde então, dizem que a Dama do Véu ainda ronda a floresta...
Mas que jamais se aproximará novamente da linhagem da Flecha da Luz.
Durante a primeira noite do cerco de Tharok ao castelo de Sagittaria, os muros tremiam não apenas pelas investidas dos orcs, mas pelo silêncio que antecedia a investida final.
No alto da torre norte, entre sombras e tochas, Edinho, comandante da Guarda Real, observava o horizonte. Não com medo. Mas com peso.
A armadura dourada em seu peito brilhava como as dos demais soldados, mas por dentro, ele carregava cicatrizes mais profundas do que qualquer espada poderia deixar.
- Anos antes…
Edinho já havia vivido além das fronteiras de Sagittaria. Em sua juventude, lutou como mercenário nas terras de Valemor, uma região distante, onde conheceu Maelira — uma curandeira de olhos cor âmbar e voz como névoa. Eles viveram meses de paz em uma cabana à beira de um rio. Ele trocou sua espada por canções, por tempo, por amor.
Mas certa manhã, sem carta ou explicação, ele partiu.
Voltou a Sagittaria no mesmo dia em que o reino fora atacado por um dragão, e jurou nunca mais abandonar sua terra. Juntou-se ao Exército Dourado e rapidamente se tornou símbolo de disciplina e lealdade.
Mas nem mesmo a espada mais firme apaga a memória de uma escolha feita em silêncio.
- No presente…
Naquela noite, enquanto Cristal e Erik defendiam o portão leste com a flecha da luz e a espada celestial, Edinho segurava os muros do oeste, onde os guerreiros das sombras escalavam em silêncio.
Seu escudeiro, um jovem chamado Taen, perguntou:
“Senhor Edinho... você acha que sobrevivemos esta noite?”
Edinho apenas olhou o céu, e por um segundo, sua mente não estava ali. Estava à beira daquele rio em Valemor. Com ela.
“Não sei, garoto... Mas hoje, se cairmos, que seja protegendo quem amamos. Mesmo que nunca digamos isso em voz alta.”
De repente, o portão oeste explodiu. Os orcs avançaram como um enxame. Edinho tomou a frente, escudo em punho, espada na outra mão. Ele rugiu com uma fúria que vinha do arrependimento. Cada golpe que dava, cada inimigo que caía, era uma parte de si que ele perdoava.
Ele não lutava apenas por Sagittaria. Lutava por tudo que deixou para trás.
Horas depois, quando a alvorada finalmente rasgou a noite, os soldados do lado oeste ainda estavam vivos. Exaustos. Mas vivos.
Edinho caiu de joelhos, ofegante, sangrando, mas com o portão atrás dele intacto. Quando Taen perguntou se ele estava bem, Edinho apenas sorriu e respondeu:
“Não... mas estou inteiro. Pela primeira vez em muito tempo.”
Desde aquela noite, passou a se dizer que o portão oeste de Sagittaria nunca foi derrubado.
Não por magia. Não por milagre.
Mas porque um homem com um coração partido o segurava firme.
E esse homem se chamava Edinho.
Ninguém a chamava pelo nome.
E ninguém sabia se ela ainda o lembrava.
No Castelo Dourado, onde os títulos ecoam mais alto que as espadas, ela era conhecida apenas como Problemática — um apelido que nasceu da desconfiança, cresceu nos corredores e floresceu entre os camponeses que temem o que não entendem.
Ela era Arcana.
Não daquelas que encantam multidões com gestos e pirotecnias mas, da espécie rara que domina os elementos mágicos com a precisão de um bisturi e o silêncio de um veneno.
Cristal confiava nela como poucos. E isso, por si só, era perigoso.
Na terceira noite do ciclo sombrio, um mensageiro foi encontrado morto nos Jardins Suspensos. As cartas que ele carregava estavam intactas, seladas com o brasão real.
Mas o conteúdo… era traição.
Apenas três tiveram acesso àquelas informações: Cristal, General Tenaris e Problemática.
Ela não se defendeu, nem protestou. Pediu apenas um dia.
“Preciso do silêncio de vinte e quatro horas para descobrir quem sussurra mais alto do que o trono.”
Cristal aceitou.
Erik não confiava.
Enquanto o reino dormia, ela caminhou no castelo por salas esquecidas — corredores de pedra onde os quadros não têm olhos, mas veem tudo.
Desceu à Câmara da Lua Velada, onde estavam os arquivos selados por decreto da Rainha Lienn — a mesma que amaldiçoou o Conselho Velado décadas atrás.
Ali encontrou o que procurava: Registros falsificados, assinaturas duplicadas, mapas de movimentações militares com trajetos alterados.
Mas não era o conteúdo que a assustava.
Era a caligrafia no verso.
Pois era a de Cristal.
Ao descobrir isso, Problemática retornou ao salão superior sem chamar guardas e pediu uma audiência privada. Na penumbra da Sala dos Códigos, ela e a princesa ficaram frente a frente.
— Você escreveu isto? — perguntou ela, lançando os papéis sobre a mesa de ferro negro.
Cristal os encarou com o peso de quem já sabia o que seria revelado
— Eu escrevi, sim.
Mas não era traição. Era encenação. Uma armadilha. Uma pista falsa para atrair o traidor.
E funcionou.
Na última página dos registros, entre os rabiscos apagados, havia um nome reaparecendo sob a tinta mágica.
Tenaris.
No dia seguinte, o general caiu em desgraça. Não com alarde. Mas com silêncio. Seu nome foi retirado dos quadros da história. E sua ausência, jamais explicada.
No campo, os camponeses sussurraram:
“ — A Arcana sabe demais.”
“ — Um dia, ela trairá também.”
“ — Ela fala com trovões e escuta o que os vivos não dizem.”
Mas no castelo, Cristal disse apenas uma frase, diante de Erik:
“ — O reino precisa de espadas para proteger suas muralhas e de sombras para proteger sua verdade.“
E assim, Problemática permaneceu, observando, vigiando e esperando o próximo silêncio a ser quebrado.
Nas ruínas esquecidas de Thandor, onde o musgo cresce sobre o que um dia foi altar, ele ainda vive. Chamam-no de Mariel, o Guardião do Véu.
Outros o chamam de tolo, louco ou espectro que se recusa a morrer. Mas Cristal o conhecia por outro nome: oráculo silencioso.
Ninguém vai até Mariel por respostas fáceis. E ninguém volta com as mesmas perguntas.
Na alvorada de um ciclo sombrio, quando rumores sobre Tharok voltaram a se espalhar pelos confins de Varneth, a princesa deixou o castelo em silêncio, acompanhada apenas por Problemática, a arcana de olhos quietos e segredos inquietos.
A caminhada até Thandor levou três dias, e em todos eles, nenhuma palavra foi dita entre as duas. Mariel as aguardava sentado sobre um círculo esculpido na pedra. Suas vestes eram feitas de linho antigo, e seus olhos, leitosos como orvalho sobre mármore.
Mas mesmo cego, parecia ver além.
— Então vieram. A Flecha da Luz… e o Eclipse que falhou.
Problemática desviou o olhar. Cristal não.
— Queremos saber o que Tharok ainda procura — disse a princesa.
Mariel sorriu. Mas não foi um sorriso gentil.
— Ele não procura. Ele espera. Espera pelo que ainda falta em você.
— Falar em enigmas não vai nos proteger — rebateu Cristal.
— E falar a verdade vai?
No centro da câmara, ele abriu um compartimento de pedra.
Ali dentro, um objeto enrolado em tecido sagrado: um fragmento de flecha, esculpido com runas que não pertenciam à luz… nem à sombra.
— Esta é a metade esquecida da Flecha da Luz — disse ele.
— O lado que Astra ocultou. O lado que fere, que condena, que exige.
Cristal estendeu a mão, mas Mariel a segurou com força surpreendente.
— Para carregar isso, precisará abrir mão do que mais acredita.
— Que é?
Ele encarou a arcana que a acompanhava.
— A lealdade absoluta.
A flecha completa não obedece.
Ela decide.
De volta ao castelo, Cristal permaneceu em silêncio por dias. Não revelou o que vira, nem o que ouvira. Mas passou a carregar algo novo consigo: um tubo de metal escuro, trancado por selo mágico.
E em noites sem lua, dizem que Problemática visita o Salão da Lâmina e encosta a palma da mão sobre ele, como quem escuta.
Não se sabe o que Mariel realmente foi — homem, espírito, sentinela.
Mas na neblina de Thandor, onde sua voz ecoa entre as ruínas, um sussurro permanece:
“O mundo não será salvo por quem obedece.
Será salvo por quem ousa ouvir… o que ninguém quer escutar.”
Ninguém o esperava. Na costa norte de Sagittaria, onde o sol queima a pele e o vento traz sussurros do fundo do mar, uma embarcação sem velas surgia entre as neblinas. Não havia tripulação, nem bandeira. Apenas ele, Jean.
O arcano de gelo. O andarilho que nunca envia aviso, e nunca diz adeus. Dizem que ele procurava lugares que não querem ser encontrados. E naquela noite, seu destino era uma ilha que só existe quando o mar desiste de esconder.
Alvarin. O nome ainda ecoava nas pedras molhadas. Uma ruína de uma ordem esquecida, submersa pela própria arrogância. E no coração dela — a biblioteca de águas vivas. Jean entrou. Não com feitiços mas, com silêncio.
As algas se afastavam em respeito. Os degraus gelavam à sua passagem, como se reconhecessem a natureza que ele mesmo não celebrava.
No centro da câmara submersa, onde o teto já havia desabado há séculos, um conjunto de pilares ainda se erguia ao redor de uma mesa circular feita de coral petrificado. Lá, havia um único livro.
Ele não tocou. A água ao redor começou a se agitar. Então, uma voz, profunda e metálica, surgiu da escuridão:
“Você sabe o que acontece com os que leem sem permissão?”
Jean não se moveu.
Nem olhou ao redor.
— Sei o que acontece com os que vivem sem saber o que foi esquecido — disse ele, com a voz baixa como uma rachadura no gelo.
A água tremeu.
Do teto partido, uma figura feita de correntezas e sombras desceu, moldando-se como um rosto flutuante.
Sem forma estável.
Sem intenção clara.
“Você não tem perguntas. Por que veio?”
Jean ergueu os olhos pela primeira vez.
— Porque as perguntas mudam. As verdades, não.
Ele então estendeu a mão sobre o livro, mas não o abriu. A figura rodopiou ao redor de si, formando correntes gélidas e bolhas presas em espirais.
“Não quer saber?”
Jean fechou os olhos.
— Saber… é uma maldição que prefiro escolher e não implorar.
O livro se abriu sozinho.
Uma explosão de água e luz inundou a sala. Runas se ergueram do chão. Ecos ancestrais gritavam em idiomas que o gelo traduziu em sua pele.
Ele viu mapas...
Fragmentos de glifos…
E um símbolo, antigo e esquecido: uma lâmina envolta em coral negro — o selo dos Arcanos de Mar Profundo.
Jean tocou a imagem, e tudo cessou.
Quando retornou a Sagittaria, semanas depois, deixou apenas uma frase anotada no diário de Cristal:
“As marés têm donos.
E eles estão acordando.”
Partiu na mesma noite. Nenhum guarda viu o portão se abrir.
Apenas gelo...
...escorrendo sob a lua.
(...)
Hoje, os pescadores do norte falam de um vulto encapuzado que caminha sobre a água. E em noites de céu limpo, pode-se ouvir um som estranho vindo do fundo do mar: Como se páginas virassem... sob as ondas.
O orvalho ainda descansava sobre as pedras antigas quando Mariel chegou às ruínas de Al’mirân. O silêncio das manhãs naquele planalto parecia mais denso do que o habitual — como se o próprio ar respeitasse o tempo de quem ali entrava. Ele carregava pouco: uma bolsa de couro, três penas secas, um frasco de tinta azul-marinho e um pergaminho que preferia não abrir.
Havia algo sereno na forma como caminhava. Seus olhos não procuravam nada em particular, mas pareciam acostumados a encontrar vestígios de sentido no que para outros seriam apenas restos. Um arco quebrado preso à parede, um mosaico de letras que resistia à erosão. Mariel era feito disso — da escuta aos detalhes que não gritavam.
Nos degraus da entrada, ele hesitou. Tocou a pedra central com a palma aberta e murmurou algumas palavras em voz baixa, como se saudasse um antigo conhecido. Não houve resposta visível. Mas ele sorriu, mesmo assim.
Ao cruzar o limiar do templo esquecido, o cheiro de poeira e papiro envelhecido o envolveu como um abraço lento. Era estranho pensar que aquele lugar, que um dia servira aos mestres do saber, agora era apenas eco. Mas para Mariel, os ecos sempre foram mais importantes do que as palavras claras.
Antes de iniciar qualquer ritual, ajoelhou-se diante de uma prateleira caída. Retirou cuidadosamente um pequeno pedaço de tecido dobrado: um pano bordado com duas flores infantis, uma vermelha e outra branca. Tocou-o com ternura, como se tivesse medo de desfazê-lo com os dedos.
— Elas teriam gostado daqui... — murmurou, sem esperar resposta.
E então, como fazia em todos os lugares onde o Véu se tornava mais tênue, ele se calou por completo. Porque há lugares que só se revelam no silêncio.
Na penumbra adiante, o livro ainda não havia começado a escrever.
Foi ao terceiro passo dentro da sala circular que o livro despertou.
Ele não estava sobre um altar, nem trancado em cofre. Jazia simples, deitado sobre um pedestal de pedra escura, sem correntes, sem adornos. Sua capa era de couro antigo, marcada com símbolos que pareciam mover-se levemente quando não olhados diretamente.
Mariel se aproximou devagar. Sentiu o sussurro suave do Véu roçando seus ouvidos, como se algo invisível segurasse a respiração ali. Então, com um ruído seco, as páginas começaram a virar sozinhas.
Palavras brotavam como se fossem sementes. Cresciam linha por linha, em tinta que parecia feita de areia e luz.
"Há nomes que já foram ditos antes do tempo... e destinos que se escrevem mesmo quando não se lê."
Mariel não tocou o livro. Sentou-se ao lado, sobre um degrau gasto, e observou. Sabia que ali não havia armadilha nem truque — mas também sabia que ler demais tem preço.
As páginas se viravam lentamente, revelando frases soltas, mapas incompletos, datas que ainda não haviam chegado. Nomes que ele desconhecia. Um deles, no entanto, pareceu pulsar diante de seus olhos: Erik.
O véu tremeu.
Uma rajada leve percorreu a sala. As chamas das velas mortas reacenderam em azul. Letras flutuaram no ar, dissolvendo-se como poeira dourada. E ali, acima do livro, uma silhueta esculpida em partículas surgiu por um instante: a cabeça de um íbis, olhos de areia, e um livro flutuando preso ao peito.
THOTH.
O Guardião não falou. Não precisava. Bastava sua presença para que o julgamento começasse. Mariel sabia. A próxima página ainda estava em branco — e o livro o esperava.
Ele ergueu sua pena. Respirou fundo. Olhou para o pano bordado dobrado ao lado, e sussurrou apenas:
— Que jamais leiam o nome delas aqui.
E então, escreveu.
A pena deslizou sem ruído. A tinta, por um instante, parecia viva — serpenteando entre os traços, formando uma frase que Mariel nunca repetiria em voz alta. A página seguinte queimou sozinha, e o cheiro era o mesmo da infância: livros molhados, flores no jardim, cabelos secos ao sol.
Ele fechou os olhos. Por um momento, viu as duas meninas correndo entre árvores de espelhos — risos que não ecoavam, porque pertenciam a um tempo que o mundo decidiu esquecer. Não eram apenas filhas. Eram âncoras. E ele as deixara.
Quando abriu os olhos, o livro estava calado.
Seu Guardião — “THOTH” — já não estava visível... mas um rastro de letras desfeitas ainda pairava no ar, como poeira que hesitava em cair.
Mariel se levantou. Pegou a pena, o frasco de tinta, e o pano bordado.
Antes de partir, escreveu na parede com os dedos sujos de tinta dourada:
“A sabedoria não é saber mais que os outros. É saber o que não dizer.”
E sem olhar para trás, desceu os degraus da ruína.
O livro permaneceu.
Esquecido. Silencioso. Mas à espera de alguém que soubesse escutar.
O vento descia frio pelo vale, trazendo o cheiro de ferro e terra molhada. A estrada parecia ter esquecido o caminho, coberta de raízes e fragmentos de pedra. Edinho cavalgava sozinho, o manto puído e o escudo às costas refletindo o tom pálido do amanhecer. Já fazia três dias que deixara as muralhas de Sagittaria, seguindo rumo ao oeste, onde o mapa ainda marcava um nome antigo: Valemor.
A vila de onde partira antes da guerra. O lugar onde tudo começara.
Conforme se aproximava, a paisagem tornava-se cinza. Cinzas no chão, cinzas nas árvores, cinzas no próprio ar. Valemor não ardia mais, mas parecia que nunca deixara de queimar. Edinho desmontou do cavalo e avançou a pé. Cada passo era um eco de lembrança — o som de martelos nas forjas, risos infantis, o cheiro de pão recém-saído do forno. E entre essas memórias, uma voz, sempre a mesma, doce e firme como vento de outono:
“Não esqueça de voltar.”
Mas ele esquecera. Ou fingira esquecer, porque lembrar doía demais.
As ruínas se erguiam à frente, cobertas de musgo e névoa. As janelas quebradas olhavam para ele como olhos que ainda o reconheciam. Por um instante, pensou em voltar. Mas algo o empurrou adiante — talvez um chamado que vinha do próprio chão.
Ao atravessar o portão antigo da vila, ouviu passos. Som fraco, mas humano. Edinho levou a mão à espada. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o som. E então ele viu: figuras pálidas caminhando entre as casas — ecos do Véu, memórias projetadas no ar, sombras que repetiam os gestos do passado. Um homem carregando lenha, uma mulher costurando, crianças correndo... fantasmas de dias felizes.
No centro da vila, uma chama tremeluzia sobre uma pedra. Pequena, quase invisível, mas viva. Edinho se ajoelhou diante dela. O calor era real.
— Astra... — murmurou. — Queimaram o que restava, não foi?
O vento respondeu com um sussurro.
Ele caminhou até uma casa parcialmente em pé, reconhecendo cada detalhe — o portão baixo, o poço ao lado, a marca de uma ferradura na parede. O coração pesou. Era ali. Sua antiga casa. O lar que deixara ao atender o chamado de Sagittaria.
Ao empurrar a porta, o ar se moveu. Pó e cinzas dançaram em espirais suaves, revelando o contorno de uma mesa, de duas cadeiras, de um jarro quebrado. E então, por um instante, uma forma ergueu-se diante dele: o rosto de Maelira, desenhado em luz e névoa.
Ela não falava, mas o olhar bastava. Havia ternura ali, e também perdão.
Edinho caiu de joelhos. A espada tilintou no chão.
— Eu devia ter ficado... — disse ele, com voz contida. — Devia ter lutado por você.
A figura o tocou de leve, dissolvendo-se em cinzas douradas. As partículas pousaram sobre o escudo, e ele sentiu um calor leve, quase humano.
“A promessa era viver o bastante para lembrar.”
A voz parecia vir de dentro dele — da lembrança, não do vento.
Edinho permaneceu ajoelhado, em silêncio.
Não buscou consolo, nem tentou entender o que vira. Apenas manteve-se ali, de cabeça baixa, como quem reconhece o peso do que foi perdido e o valor do que permanece.
A coragem, compreendeu, não estava em lutar — mas em permanecer inteiro diante da ausência.
O sol já nascia quando Edinho se levantou. Pegou o escudo e o ergueu à altura do rosto. A superfície estava fria, mas o centro — o ponto onde as cinzas haviam caído — ainda guardava calor. Não uma luz visível, apenas uma sensação. Como se algo permanecesse ali, discreto e fiel.
Ele passou os dedos sobre o metal e murmurou:
“Nem toda chama serve para iluminar. Algumas apenas impedem que o frio vença.”
Montou no cavalo e olhou para trás uma última vez. A névoa começava a se dissipar. As formas espectrais desapareciam, libertas. Valemor repousava em silêncio, e naquele silêncio havia paz.
Enquanto se afastava pelo vale, o vento soprou de novo, e Edinho jurou que ouviu risos ao longe — como o som de lembranças sendo devolvidas ao tempo.
Desde então, nas noites mais frias, dizem que os soldados do Portão Oeste veem uma leve brisa dourada tremular sobre os escudos quando Edinho está de guarda.
Ninguém nunca viu luz alguma, mas todos sentem o mesmo calor — como se a coragem dele ainda queimasse, mesmo no silêncio.
Chamam isso de A Luz de Valemor.
Não uma chama visível, mas a lembrança viva de um homem que lutou contra o esquecimento.
O sol subia devagar, como se medisse cada dedo de luz antes de tocar a pedra nova. O Portal Solar erguia-se sobre o antigo campo de combate: dois pilares de granito polido sustentando o arco metálico que lembrava um semicírculo incompleto, voltado para o leste. No topo, lâminas finas de ouro trabalhado desenhavam raios discretos; abaixo, no pavimento, uma espiral de mármore claro marcava o centro exato onde a sombra do arco vinha repousar ao meio-dia.
À frente do monumento, o pátio de cerimônias estava tomado. Fileiras de estandartes pendiam imóveis, como se a brisa respeitasse o silêncio. A muralha de honra — uma composição de cavaleiros em armaduras de gala, arqueiros com mantos claros e oficiais civis com faixas de seda — formava um semicírculo em torno da plataforma elevada. No centro dela, uma mesa baixa de madeira escura sustentava uma caixa longa, finamente entalhada: o invólucro do Arco da Luz.
A população ficara mais atrás, disposta em degraus naturais de terra e pedra, recém-escavados para receber a multidão. Camponeses com roupas de linho, artesãos com aventais escuros, nobres em mantos comprimidos pelo calor. De um lado, uma tribuna simples, de madeira, abrigava o Conselho Dourado. Ninguém dera ordens bruscas naquele dia; o protocolo parecia caminhar sozinho.
Quando o Arauto ergueu o bastão e o bateu uma vez no piso, o som seco viajou como um comando. A plataforma central recebeu os protagonistas da manhã.
Erik subiu primeiro, com o manto cerimonial do Exército Dourado cruzado no peito. A bainha da espada descansava discreta; era uma presença suficiente. O cabelo preso para trás, a postura sem rigidez teatral — firme como se tivesse atalaias nos ombros. Recolheu o olhar sobre o povo, medindo o peso daquela manhã com a mesma seriedade com que se mede a espessura de uma ponte antes de atravessá-la com um exército.
Atrás dele, Cristal caminhou até a mesa. O tecido claro do manto oficial caía rente ao corpo, sem adornos. Ao aproximar-se da caixa entalhada, deteve-se por um instante — não por indecisão, mas por respeito. O silêncio correspondeu, como se o pátio inteiro respirasse com ela. Quando abriu o invólucro, a madeira exalou um perfume leve de resina e pó antigo. O Arco da Luz repousava ali — não brilhava, não cantava, não pedia nada. Era apenas arco. Era o bastante.
Na tribuna, os conselheiros mantiveram a compostura. Um escriba molhou a pena e aguardou. A seu lado, um homem de barba muito bem tratada inclinou o rosto o suficiente para indicar uma sequência prevista, sem ostentação: primeiro o Juramento, depois o Disparo. A ordem dos símbolos tem autoridade que nem o ferro desconsidera.
O Arauto deu dois passos à frente e entoou:
— Pelo Reino de Sagittaria, por sua luz e por seus muros, por seu pão e por seus nomes. Diante do Portal que guarda a memória e a passagem, convocamos a cerimônia de consolidação da paz. Que se registrem, nesta manhã, as palavras que sustentarão o dia de amanhã.
Ninguém aplaudiu. Aquele era um ato para ser gravado, não para ser celebrado.
Erik se adiantou um passo. A voz saiu baixa, sem floreios:
— Em nome do Exército Dourado, declaro que este monumento foi erguido nas ruínas onde a guerra terminou. Aqui, não juramos vitória; juramos vigilância. Onde faltou muro, levantamos muro. Onde faltou pão, faremos pão. E onde faltou luz — aqui abrimos um lugar para que ela nunca falte.
Houve um murmúrio quase reverente na multidão. O capitão da ala leste dos cavaleiros bateu o punho no escudo e tornou a guardá-lo junto ao corpo. Do outro lado, líderes de tiro mantiveram os arqueiros em posição de descanso; nenhum arco se ergueria naquela manhã, exceto um.
O Arauto virou-se para Cristal, que já segurava o arco com a mão esquerda. O gesto pareceu natural, como água encontrando o leito. A caixa foi fechada; alguém a recolheu, sem ruído. Ao lado da mesa, uma aljava ritual foi apresentada. Não continha flechas de batalha. Eram flechas de paz: madeira clara, pena branca, ponta não cortante, apenas símbolo.
— Cristal, disse o Arauto, e não acrescentou títulos. — Destinada a conduzir o gesto que fecha um ciclo e abre outro.
Ela assentiu. O olhar percorreu a espiral de mármore no pavimento e deteve-se no centro, onde a pedra parecia ainda mais nova. O Portal aguardava — não cobiçoso, apenas aberto.
O Arauto recitou:
— Quando o arco se ergue diante do sol, Sagittaria lembra o que a feriu. Quando a flecha atravessa o brilho, Sagittaria lembra por que continua. Que a paz não durma; que a paz escute.
Ao pronunciar as últimas palavras, inclinou a cabeça. Era o momento do Juramento — o texto fora preparado, as frases calibradas para não ferir as margens do protocolo. Mas havia em toda boa cerimônia uma margem para o humano, desde que não quebrasse o equilíbrio do rito.
Cristal deu um passo adiante.
— Esta flecha — disse, sustentando a voz para que atravessasse o pátio — não é um prêmio. Não é um descanso. É um compromisso. E compromisso não termina quando a mão abre; começa.
As mãos não tremeram. O arco foi armado com uma fluidez que não tinha ostentação; era ofício. Um leve som de tensão percorreu a corda. A ponta branca, redonda, apontou para o interior do Portal. O sol, ainda baixo, bateu no metal do arco e devolveu uma lâmina pálida sobre a pedra.
Nesse exato instante, um pequeno ruído de pano veio da tribuna do Conselho. Um conselheiro ajustou o manto sobre o ombro, outro inclinou o corpo para o escriba; nenhum deles falou. O gesto dizia: prossiga.
Cristal respirou. E, por um segundo, percebeu sob o rumor do povo um som mais agudo — como se a pedra lembrasse alguma coisa e tentasse dizê-la. Não foi visão, nem presságio, apenas a nitidez que às vezes o mundo permite quando duas coisas se alinham.
Então soltou a flecha.
O disparo não cortou o ar; ele o costurou. A trajetória não foi reta nem curva. Foi exata — uma linha limpa que avançou até atravessar o arco do Portal e desaparecer no brilho do sol, do outro lado, atrás da estrutura. Não houve faísca, nem rebote, nem milagre visível.
Mas o silêncio que se seguiu teve uma textura que ninguém soube nomear.
Por alguns respirares longos, as pessoas continuaram como estavam, como se algum movimento súbito pudesse desfazer algo delicado. E então, com a naturalidade inexplicável do cotidiano, o som dos pássaros reentrou na manhã, não aos bandos, mas aos pares. Os estandartes voltaram a flutuar, e uma criança chorou de fome nas últimas fileiras.
O Arauto baixou o bastão e enunciou:
— Que se registre: a Cerimônia da Flecha Solar foi conduzida diante do Portal, com o Reino presente. A paz foi afirmada. O Juramento foi feito.
O escriba escreveu. Pena, tinta, papel. Não há eternidade sem a humildade do registro.
Erik aproximou-se de Cristal. Não era hora de sorrisos. Ele apenas pousou a mão direita no ombro dela por um instante — um gesto público, simples, incontestável. Os olhos trocaram um acordo sem texto: o que vier, suportamos em pé.
Da tribuna, o Presidente do Conselho levantou-se. O manto claro refletiu um raio de sol. Ele não desceu até a plataforma; falou do lugar em que estava, como quem respeita as linhas de um mapa invisível.
— Que este dia seja lembrado. A guerra terminou há um ano, e hoje o Reino de Sagittaria afirmou a paz não como festa, mas como trabalho. Para que este trabalho não seja desmontado pela pressa ou pelo ardor, o Conselho Dourado emite, neste ato, um Protocolo de Cerimônias: nos rituais públicos que afetem símbolos do Reino — muros, pão ou luz —, toda condução seguirá texto e ordem previamente assentados entre os responsáveis. Não para esfriar a fé, mas para protegê-la. Não para calar vontades, mas para compor vontades.
Não havia censura na voz. Havia forma. A multidão não reagiu. Quem trabalha com terra entende que o sulco precisa ser reto para que a água alcance todos os cantos; quem trabalha com luz entende que o feixe precisa ser contido para não cegar.
O escriba anotou. Ao lado, um mensageiro recebeu um duplicado lacrado: o Protocolo passaria a valer dali em diante. Ninguém o viu como um muro contra alguém; viram-no como uma moldura para o conjunto.
A liturgia prosseguiu com pequena procissão de oferendas — pães de cevada, panelas de barro, sementes — depositadas ao pé dos pilares. Um velho artesão deixou uma ferradura; um grupo de crianças trouxe uma corda nova para o arco, enrolada numa fita. As coisas simples fazem a política do mundo quando ninguém levanta a voz para ensinar.
Ao se encerrar a fila, o Arauto conduziu o fecho:
— Pelo Reino, pela memória, pela vida comum. A cerimônia está concluída.
As alas laterais abriram caminho. Os cavaleiros recolheram a formação com a precisão de quem ensina sem falar; os arqueiros giraram em bloco, acompanhando o movimento com a harmonia de uma dança que não deseja aplauso; os oficiais civis ordenaram as saídas com pequenos gestos, mais preocupados com a segurança dos degraus do que com a solenidade dos mantos.
Cristal permaneceu alguns segundos diante da espiral de mármore. O lugar onde a flecha atravessara o arco não deixara marca, como deve ser nas coisas que pretendem durar. Aproximou a mão da pedra — não tocou — e respirou. Ao erguer os olhos, encontrou os de Erik, que aguardava um passo atrás. Desceram juntos.
No caminho para a ala reservada, cruzaram com um capitão de arqueiros que trazia nos dedos uma calosidade antiga; ele inclinou a cabeça, sem palavras, como se dissesse: o gesto está resguardado. Em seguida, passou por eles uma jovem oficial da intendência, carregando uma lista dobrada — trigo, tijolos, madeira. A reconstrução não se emociona; ela acontece.
Na sombra fresca de uma tenda, água foi oferecida. A primeira taça tomou o rumo de Cristal, que a aceitou com um “obrigada” sussurrado. A segunda foi para Erik. O som do povo se afastava em ondas, como maré que retorna depois de tocar rochas.
— Foi suficiente, disse Erik, baixo.
— Foi o que precisava ser, respondeu ela.
Nenhum dos dois explicou o que aquilo queria dizer. A política pode matar as certezas quando tenta transformá-las em decretos.
Horas depois, quando já recolhiam os últimos bancos e desatavam nós das bandeiras, um aprendiz pedreiro cruzou o pátio levando ferramentas. Evitou pisar sobre a espiral de mármore — não por medo ou superstição, mas por delicadeza — e, ao fazê-lo, notou algo que os olhos dos grandes haviam poupado de ver: uma linha luminescente tão sutil que um piscar bastava para desfazê-la. Um resto de brilho posara sobre a pedra, tão fino quanto um fio de teia.
Ele deixou-se ficar por dois ou três segundos, antes que alguém o chamasse. Não contou a ninguém. Crianças e aprendizes são, por vezes, os melhores escribas do mundo: guardam e seguem.
No final da tarde, o Conselho reuniu-se em sala estreita, onde mapas e contas dividiam a mesa com cartas de pedidos. Alguém falou sobre abastecimento; alguém falou sobre pontes; alguém sugeriu uma nova data para o Festival do Pão. Quando o tema da cerimônia retornou, ninguém discutiu a correção do Protocolo. Não fora uma mordaça; fora um cinto de ferramentas. Arcanos, cavaleiros e arqueiros — cada qual com seu ofício — trabalhariam melhor quando o desenho estivesse visível na parede.
Na noite do mesmo dia, o Portal Solar já não tinha curiosos à volta. Os guardas renderam-se com trocas breves de senha, e uma lamparina de óleo brilhou mais forte do que precisava ao pé do pilar direito, porque os homens que passam noites ao relento sabem como se faz para que a chama dure até o nascer.
De madrugada, chuviscou. A espiral de mármore bebeu água fina, e a pedra suspirou. Quando o sol tocou novamente o arco, não houve prodígio; houve apenas luz. E ela bastou.
No registro oficial do dia, posto no livro grande da cidade, o escriba redigiu:
“No primeiro ano após o fim da guerra, diante do Portal Solar, foi conduzida a Cerimônia da Flecha. O Reino compareceu. O Exército Dourado deu palavra de vigilância. A arqueira Cristal executou o gesto. O Conselho Dourado publicou Protocolo para a ordem de ritos públicos. O povo dispersou em paz.”
Na margem, entretanto, ele acrescentou uma linha menor, em letra quase tímida:
“Viu-se serenidade.”
E encerrou com a data.
Quando as estrelas já tinham posto os cotovelos no parapeito do céu, Erik subiu à muralha leste do castelo. Olhou na direção do Portal, que mal se via; apenas o contorno. Pensou no peso das palavras ditas e nas que foram guardadas. Lembrou-se do gesto breve, da mão sobre o ombro de Cristal. Algumas decisões do Reino não moram nos decretos; moram nos acordos silenciosos que sustentam os decretos.
No mesmo momento, em seu quarto, Cristal abriu a janela. Sobre a mesa, o arco repousava no suporte de madeira. Não havia coroa, não havia medalha. Apenas o instrumento e as mãos que sabiam usá-lo quando fosse necessário. Aquele dia não pedira vitória, mas disciplina.
Ela fechou os olhos e repetiu, desta vez para si:
— Compromisso não termina quando a mão abre; começa.
Longe dali, um grupo de mulheres apagou as últimas brasas de um forno comunitário e cobriu os pães com pano limpo. Um menino recuperou uma bola de trapos no beiral e a lançou no ar. Um cachorro desconfiou de alguma coisa inexistente e rosnou para a parede. A vida comum — esse juramento que ninguém assina em praça pública — seguiu.
O Portal ficou, como fica a memória quando se decide dar-lhe forma. Não competia ao monumento opinar; competia-lhe lembrar.
E o Reino, que aprendera o preço dos excessos — de armas, de palavras, de medos —, guardou daquele dia a lição mais difícil e mais útil: paz não é esquecimento; paz é não abrir mão do que nos mantém juntos.
No amanhecer seguinte, antes que a cidade despertasse por completo, um jardineiro ajoelhou-se junto à base do pilar esquerdo e plantou três mudas: uma de oliveira, uma de alecrim, uma de salgueiro. Fez um círculo com as mãos em torno da terra molhada e disse, sem misticismo:
— Que cresçam.
E levantou-se. Tinha trabalho.
A Flecha havia sido disparada. O Juramento estava selado. O Reino tinha pela frente a tarefa mais longa de todas: cumpri-lo.