O sol subia devagar, como se medisse cada dedo de luz antes de tocar a pedra nova. O Portal Solar erguia-se sobre o antigo campo de combate: dois pilares de granito polido sustentando o arco metálico que lembrava um semicírculo incompleto, voltado para o leste. No topo, lâminas finas de ouro trabalhado desenhavam raios discretos; abaixo, no pavimento, uma espiral de mármore claro marcava o centro exato onde a sombra do arco vinha repousar ao meio-dia.
À frente do monumento, o pátio de cerimônias estava tomado. Fileiras de estandartes pendiam imóveis, como se a brisa respeitasse o silêncio. A muralha de honra — uma composição de cavaleiros em armaduras de gala, arqueiros com mantos claros e oficiais civis com faixas de seda — formava um semicírculo em torno da plataforma elevada. No centro dela, uma mesa baixa de madeira escura sustentava uma caixa longa, finamente entalhada: o invólucro do Arco da Luz.
A população ficara mais atrás, disposta em degraus naturais de terra e pedra, recém-escavados para receber a multidão. Camponeses com roupas de linho, artesãos com aventais escuros, nobres em mantos comprimidos pelo calor. De um lado, uma tribuna simples, de madeira, abrigava o Conselho Dourado. Ninguém dera ordens bruscas naquele dia; o protocolo parecia caminhar sozinho.
Quando o Arauto ergueu o bastão e o bateu uma vez no piso, o som seco viajou como um comando. A plataforma central recebeu os protagonistas da manhã.
Erik subiu primeiro, com o manto cerimonial do Exército Dourado cruzado no peito. A bainha da espada descansava discreta; era uma presença suficiente. O cabelo preso para trás, a postura sem rigidez teatral — firme como se tivesse atalaias nos ombros. Recolheu o olhar sobre o povo, medindo o peso daquela manhã com a mesma seriedade com que se mede a espessura de uma ponte antes de atravessá-la com um exército.
Atrás dele, Cristal caminhou até a mesa. O tecido claro do manto oficial caía rente ao corpo, sem adornos. Ao aproximar-se da caixa entalhada, deteve-se por um instante — não por indecisão, mas por respeito. O silêncio correspondeu, como se o pátio inteiro respirasse com ela. Quando abriu o invólucro, a madeira exalou um perfume leve de resina e pó antigo. O Arco da Luz repousava ali — não brilhava, não cantava, não pedia nada. Era apenas arco. Era o bastante.
Na tribuna, os conselheiros mantiveram a compostura. Um escriba molhou a pena e aguardou. A seu lado, um homem de barba muito bem tratada inclinou o rosto o suficiente para indicar uma sequência prevista, sem ostentação: primeiro o Juramento, depois o Disparo. A ordem dos símbolos tem autoridade que nem o ferro desconsidera.
O Arauto deu dois passos à frente e entoou:
— Pelo Reino de Sagittaria, por sua luz e por seus muros, por seu pão e por seus nomes. Diante do Portal que guarda a memória e a passagem, convocamos a cerimônia de consolidação da paz. Que se registrem, nesta manhã, as palavras que sustentarão o dia de amanhã.
Ninguém aplaudiu. Aquele era um ato para ser gravado, não para ser celebrado.
Erik se adiantou um passo. A voz saiu baixa, sem floreios:
— Em nome do Exército Dourado, declaro que este monumento foi erguido nas ruínas onde a guerra terminou. Aqui, não juramos vitória; juramos vigilância. Onde faltou muro, levantamos muro. Onde faltou pão, faremos pão. E onde faltou luz — aqui abrimos um lugar para que ela nunca falte.
Houve um murmúrio quase reverente na multidão. O capitão da ala leste dos cavaleiros bateu o punho no escudo e tornou a guardá-lo junto ao corpo. Do outro lado, líderes de tiro mantiveram os arqueiros em posição de descanso; nenhum arco se ergueria naquela manhã, exceto um.
O Arauto virou-se para Cristal, que já segurava o arco com a mão esquerda. O gesto pareceu natural, como água encontrando o leito. A caixa foi fechada; alguém a recolheu, sem ruído. Ao lado da mesa, uma aljava ritual foi apresentada. Não continha flechas de batalha. Eram flechas de paz: madeira clara, pena branca, ponta não cortante, apenas símbolo.
— Cristal, disse o Arauto, e não acrescentou títulos. — Destinada a conduzir o gesto que fecha um ciclo e abre outro.
Ela assentiu. O olhar percorreu a espiral de mármore no pavimento e deteve-se no centro, onde a pedra parecia ainda mais nova. O Portal aguardava — não cobiçoso, apenas aberto.
O Arauto recitou:
— Quando o arco se ergue diante do sol, Sagittaria lembra o que a feriu. Quando a flecha atravessa o brilho, Sagittaria lembra por que continua. Que a paz não durma; que a paz escute.
Ao pronunciar as últimas palavras, inclinou a cabeça. Era o momento do Juramento — o texto fora preparado, as frases calibradas para não ferir as margens do protocolo. Mas havia em toda boa cerimônia uma margem para o humano, desde que não quebrasse o equilíbrio do rito.
Cristal deu um passo adiante.
— Esta flecha — disse, sustentando a voz para que atravessasse o pátio — não é um prêmio. Não é um descanso. É um compromisso. E compromisso não termina quando a mão abre; começa.
As mãos não tremeram. O arco foi armado com uma fluidez que não tinha ostentação; era ofício. Um leve som de tensão percorreu a corda. A ponta branca, redonda, apontou para o interior do Portal. O sol, ainda baixo, bateu no metal do arco e devolveu uma lâmina pálida sobre a pedra.
Nesse exato instante, um pequeno ruído de pano veio da tribuna do Conselho. Um conselheiro ajustou o manto sobre o ombro, outro inclinou o corpo para o escriba; nenhum deles falou. O gesto dizia: prossiga.
Cristal respirou. E, por um segundo, percebeu sob o rumor do povo um som mais agudo — como se a pedra lembrasse alguma coisa e tentasse dizê-la. Não foi visão, nem presságio, apenas a nitidez que às vezes o mundo permite quando duas coisas se alinham.
Então soltou a flecha.
O disparo não cortou o ar; ele o costurou. A trajetória não foi reta nem curva. Foi exata — uma linha limpa que avançou até atravessar o arco do Portal e desaparecer no brilho do sol, do outro lado, atrás da estrutura. Não houve faísca, nem rebote, nem milagre visível.
Mas o silêncio que se seguiu teve uma textura que ninguém soube nomear.
Por alguns respirares longos, as pessoas continuaram como estavam, como se algum movimento súbito pudesse desfazer algo delicado. E então, com a naturalidade inexplicável do cotidiano, o som dos pássaros reentrou na manhã, não aos bandos, mas aos pares. Os estandartes voltaram a flutuar, e uma criança chorou de fome nas últimas fileiras.
O Arauto baixou o bastão e enunciou:
— Que se registre: a Cerimônia da Flecha Solar foi conduzida diante do Portal, com o Reino presente. A paz foi afirmada. O Juramento foi feito.
O escriba escreveu. Pena, tinta, papel. Não há eternidade sem a humildade do registro.
Erik aproximou-se de Cristal. Não era hora de sorrisos. Ele apenas pousou a mão direita no ombro dela por um instante — um gesto público, simples, incontestável. Os olhos trocaram um acordo sem texto: o que vier, suportamos em pé.
Da tribuna, o Presidente do Conselho levantou-se. O manto claro refletiu um raio de sol. Ele não desceu até a plataforma; falou do lugar em que estava, como quem respeita as linhas de um mapa invisível.
— Que este dia seja lembrado. A guerra terminou há um ano, e hoje o Reino de Sagittaria afirmou a paz não como festa, mas como trabalho. Para que este trabalho não seja desmontado pela pressa ou pelo ardor, o Conselho Dourado emite, neste ato, um Protocolo de Cerimônias: nos rituais públicos que afetem símbolos do Reino — muros, pão ou luz —, toda condução seguirá texto e ordem previamente assentados entre os responsáveis. Não para esfriar a fé, mas para protegê-la. Não para calar vontades, mas para compor vontades.
Não havia censura na voz. Havia forma. A multidão não reagiu. Quem trabalha com terra entende que o sulco precisa ser reto para que a água alcance todos os cantos; quem trabalha com luz entende que o feixe precisa ser contido para não cegar.
O escriba anotou. Ao lado, um mensageiro recebeu um duplicado lacrado: o Protocolo passaria a valer dali em diante. Ninguém o viu como um muro contra alguém; viram-no como uma moldura para o conjunto.
A liturgia prosseguiu com pequena procissão de oferendas — pães de cevada, panelas de barro, sementes — depositadas ao pé dos pilares. Um velho artesão deixou uma ferradura; um grupo de crianças trouxe uma corda nova para o arco, enrolada numa fita. As coisas simples fazem a política do mundo quando ninguém levanta a voz para ensinar.
Ao se encerrar a fila, o Arauto conduziu o fecho:
— Pelo Reino, pela memória, pela vida comum. A cerimônia está concluída.
As alas laterais abriram caminho. Os cavaleiros recolheram a formação com a precisão de quem ensina sem falar; os arqueiros giraram em bloco, acompanhando o movimento com a harmonia de uma dança que não deseja aplauso; os oficiais civis ordenaram as saídas com pequenos gestos, mais preocupados com a segurança dos degraus do que com a solenidade dos mantos.
Cristal permaneceu alguns segundos diante da espiral de mármore. O lugar onde a flecha atravessara o arco não deixara marca, como deve ser nas coisas que pretendem durar. Aproximou a mão da pedra — não tocou — e respirou. Ao erguer os olhos, encontrou os de Erik, que aguardava um passo atrás. Desceram juntos.
No caminho para a ala reservada, cruzaram com um capitão de arqueiros que trazia nos dedos uma calosidade antiga; ele inclinou a cabeça, sem palavras, como se dissesse: o gesto está resguardado. Em seguida, passou por eles uma jovem oficial da intendência, carregando uma lista dobrada — trigo, tijolos, madeira. A reconstrução não se emociona; ela acontece.
Na sombra fresca de uma tenda, água foi oferecida. A primeira taça tomou o rumo de Cristal, que a aceitou com um “obrigada” sussurrado. A segunda foi para Erik. O som do povo se afastava em ondas, como maré que retorna depois de tocar rochas.
— Foi suficiente, disse Erik, baixo.
— Foi o que precisava ser, respondeu ela.
Nenhum dos dois explicou o que aquilo queria dizer. A política pode matar as certezas quando tenta transformá-las em decretos.
Horas depois, quando já recolhiam os últimos bancos e desatavam nós das bandeiras, um aprendiz pedreiro cruzou o pátio levando ferramentas. Evitou pisar sobre a espiral de mármore — não por medo ou superstição, mas por delicadeza — e, ao fazê-lo, notou algo que os olhos dos grandes haviam poupado de ver: uma linha luminescente tão sutil que um piscar bastava para desfazê-la. Um resto de brilho posara sobre a pedra, tão fino quanto um fio de teia.
Ele deixou-se ficar por dois ou três segundos, antes que alguém o chamasse. Não contou a ninguém. Crianças e aprendizes são, por vezes, os melhores escribas do mundo: guardam e seguem.
No final da tarde, o Conselho reuniu-se em sala estreita, onde mapas e contas dividiam a mesa com cartas de pedidos. Alguém falou sobre abastecimento; alguém falou sobre pontes; alguém sugeriu uma nova data para o Festival do Pão. Quando o tema da cerimônia retornou, ninguém discutiu a correção do Protocolo. Não fora uma mordaça; fora um cinto de ferramentas. Arcanos, cavaleiros e arqueiros — cada qual com seu ofício — trabalhariam melhor quando o desenho estivesse visível na parede.
Na noite do mesmo dia, o Portal Solar já não tinha curiosos à volta. Os guardas renderam-se com trocas breves de senha, e uma lamparina de óleo brilhou mais forte do que precisava ao pé do pilar direito, porque os homens que passam noites ao relento sabem como se faz para que a chama dure até o nascer.
De madrugada, chuviscou. A espiral de mármore bebeu água fina, e a pedra suspirou. Quando o sol tocou novamente o arco, não houve prodígio; houve apenas luz. E ela bastou.
No registro oficial do dia, posto no livro grande da cidade, o escriba redigiu:
“No primeiro ano após o fim da guerra, diante do Portal Solar, foi conduzida a Cerimônia da Flecha. O Reino compareceu. O Exército Dourado deu palavra de vigilância. A arqueira Cristal executou o gesto. O Conselho Dourado publicou Protocolo para a ordem de ritos públicos. O povo dispersou em paz.”
Na margem, entretanto, ele acrescentou uma linha menor, em letra quase tímida:
“Viu-se serenidade.”
E encerrou com a data.
Quando as estrelas já tinham posto os cotovelos no parapeito do céu, Erik subiu à muralha leste do castelo. Olhou na direção do Portal, que mal se via; apenas o contorno. Pensou no peso das palavras ditas e nas que foram guardadas. Lembrou-se do gesto breve, da mão sobre o ombro de Cristal. Algumas decisões do Reino não moram nos decretos; moram nos acordos silenciosos que sustentam os decretos.
No mesmo momento, em seu quarto, Cristal abriu a janela. Sobre a mesa, o arco repousava no suporte de madeira. Não havia coroa, não havia medalha. Apenas o instrumento e as mãos que sabiam usá-lo quando fosse necessário. Aquele dia não pedira vitória, mas disciplina.
Ela fechou os olhos e repetiu, desta vez para si:
— Compromisso não termina quando a mão abre; começa.
Longe dali, um grupo de mulheres apagou as últimas brasas de um forno comunitário e cobriu os pães com pano limpo. Um menino recuperou uma bola de trapos no beiral e a lançou no ar. Um cachorro desconfiou de alguma coisa inexistente e rosnou para a parede. A vida comum — esse juramento que ninguém assina em praça pública — seguiu.
O Portal ficou, como fica a memória quando se decide dar-lhe forma. Não competia ao monumento opinar; competia-lhe lembrar.
E o Reino, que aprendera o preço dos excessos — de armas, de palavras, de medos —, guardou daquele dia a lição mais difícil e mais útil: paz não é esquecimento; paz é não abrir mão do que nos mantém juntos.
No amanhecer seguinte, antes que a cidade despertasse por completo, um jardineiro ajoelhou-se junto à base do pilar esquerdo e plantou três mudas: uma de oliveira, uma de alecrim, uma de salgueiro. Fez um círculo com as mãos em torno da terra molhada e disse, sem misticismo:
— Que cresçam.
E levantou-se. Tinha trabalho.
A Flecha havia sido disparada. O Juramento estava selado. O Reino tinha pela frente a tarefa mais longa de todas: cumpri-lo.